É principio de tarde e decidi sentar-me nos bancos da avenida. Acendo um cigarro e contemplo distraidamente as pessoas à minha volta. Principalmente as que estão sentadas como eu. São uma multidão heterogénea. Novos, velhos, homens, mulheres. Sozinhos, aos pares. Do mais indigente ao executivo de fato de corte barato. “O império dos sentados” como gosto de lhes chamar. São personagens que parecem ter parado no tempo, mesmo que não estejam aqui há muito tempo, não deixa de parecer que já não são indivíduos, mas que são eles próprios um prolongamento da madeira e do aço de que são feitos os seus tronos improvisados.
Governam cada um uma vida, ou contemplam uma qualquer filosofia inócua e de ocasião. São ao mesmo tempo, ditadores e pensadores do pequeno império de lajes de granito, pombos e lixo do MacDonalds que se espraiam a seus pés. Absorvem a pouca luz do dia nublado como se dela dependessem para viver.
Fumam cigarros indolentemente, como se cada um deles depois de aceso fosse a ampulheta com a qual medem o tempo que passa. Será que medem as horas pelo ritmo a que o maço se esvazia?
Agora todos os olhos se elevam para o céu. O sol foi-lhes roubado e aproxima-se um aguaceiro, precedido por este vento estranhamente cortante. Mas nenhum deles faz o mínimo gesto para se levantar. Aguardam despreocupadamente a água fria que lhes vai colar os cabelos às frontes, enregelá-los e torná-los duros como o granito em que os seus pés se apoiam. Vão tornar-se as estátuas vivas, sem que isso as pereça assustar. Quase parece que estão ansiosa e pacientemente à espera disso. Começa a chover. Decido correr o risco de me tornar um monólito e ombrear com estas grotescas personagens e fico. Mas será que decidi mesmo ou não consigo simplesmente levantar-me? De qualquer forma, já não sou eu quem manda.
Começou a chover. Os pombos, súbditos sem saberem, debandaram às primeiras gotas caídas. E eis que começa. As roupas a ensoparem. As meias de vidro da reformada que passam de branco nacarado ao tom pouco bronzeado das suas pernas. É o bigode do homem de meia idade que pinga água como um pincel molhado. A gravata do executivo que esvoaça frenética, lhe fustiga a cara, o pescoço, o peito. A maquilhagem das teenagers escorre pelos rostos demasiado jovens que elas tentam dia após dia tornar mais maduros sem saberem o que perdem. As suas roupas diminutas que se colam aos corpos, lhes denunciam as formas de meninas em corpos de mulheres, que elas desejam embrutecer rapidamente (“morreremos jovens mas belas”). O xaile da sem abrigo que se ensopa e se torna mais pesado que um jugo, sem que ela ceda um milímetro que seja.
Todos fumam. Nenhum pára de fumar, mesmo com os cigarros já molhados e amarelecidos. Todos eles continuam agarrados às suas ampulhetas, mordem-nos vorazmente, agarrando-se a eles para que o tempo passe, para que o tempo não páre.
Cigarros que são como relógios sem corda, parados no tempo, que têm uma hora certa. Duas vezes ao dia. Só a seguir ás refeições.
Eis que começa.
De repente, com o aumentar da chuvada, começo a notar uma alteração nos seus corpos. É um espectáculo quase horrífico. A chuva, como um ácido, começa a corroer-lhes a pele, que começa a cair em pequenos pedaços. E por baixo dessa pele, surge uma nova, tão branca e imaculada como a de um recém-nascido.
E sorriem.
Sorriem à medida que a pele lhes é arrancada e com ela todos os pequenos pecados, culpas, fardos e angústias que têm carregado até hoje. Sorriem. E fumam. Puxam cigarros atrás de cigarro, como se as suas próprias vidas dependessem disso. A nova pele, os seus novos “eus”, limpos, leves e imaculados, brilham com uma luz fortíssima, do mais luminoso branco que já vi. Como neve.
Já não sorriem. Agora riem. Riem para mim, um riso sardónico e malévolo. E fumam. Não param de fumar. Riem. Fumam. E eu já só choro. Tenho frio. Estou frio. Sou frio. Granítico. Fumam e riem. Riem não para mim, mas de mim. Quero mexer-me, mas não consigo. Os meus membros enrijeceram, o sangue coagulou nas veias em veios de quartzo. Só a minha mente se mantém um magma tenuamente fluido. Agora sou eu uma estátua neste jardim. Fiz com que o tempo parasse para mim, e agora sou incapaz de voltar a pô-lo em movimento. Sou eu agora o prolongamento do banco, o apêndice deste parque, como aqueles sobre os quais meditava há pouco.
Estátua.
Imóvel.
Pedra.
Parou de chover. Todos pararam de rir. Já não sorriem. Levantam-se, ignorando a minha presença, como se eu fosse já um adereço na avenida. O sol voltou, e todos se afastam. E os pombos, súbditos abandonados pelos seus imperadores de bancos de jardim, fumadores de tempo, agora de alma lavada, vêm pousar em mim. Sou eu agora o poleiro que usam para perscrutar ao longe à procura de um novo monarca. E arrulham altivamente em cima de mim.
Bolas, não devia ter parado de fumar.